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8 de maio de 2012

'A fronteira de asfalto': uma pequena preciosidade


Da conjugação de generosidades nasceu esta pequena preciosidade. De um lado, a generosidade literária do celebrado José Luandino Vieira e, do outro, a generosidade gráfica de Alberto Péssimo. Juntas, deram forma a esta edição da Letras & Coisas, uma publicação destinada a apoiar a ASAS. O argumento é tão simples e belo quanto intemporal: a história de uma amizade impedida pelo preconceito. O asfalto delimita a fronteira entre dois mundos contrastantes, porque do outro lado da rua asfaltada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. ... E (Ricardo) lembrava-se do tempo em que não havia perguntas, respostas, explicações. Quando ainda não havia a fronteira de asfalto (p.9).  

27 de março de 2012

Serpentes engravatadas

Desengane-se quem pensa que todos os psicopatas se comparam ao protótipo de "Jack, o estripador" ou de "Hannibal Lector": geralmente sanguinários, anti-sociais e reconhecíveis pelas maiores atrocidades. Não. Também os há de fato e gravata; a comandar grandes empresas, instituições de renome, entidades financeiras e equipas de trabalho várias. É exactamente sobre esses que versa o livro de base científica "Snakes in suits: when psychopaths go to work" (infelizmente não traduzido para português). Da autoria de dois peritos em psicopatia (Paul Babiak e Robert Hare), a obra retrata como "qualidades" de liderança, carisma superficial, convicção, flexibilidade moral e ética, capacidade de correr riscos, ambição ou manipulação podem resultar numa escolha perigosa (estimada em 10% dos casos) e invariavelmente destrutiva (para uns quantos ou para muitos). O principal problema não residirá na maioria dos requisitos mas, antes, no facto de muitos deles encaixarem "como uma luva" na personalidade anti-social (termo técnico para a vulgar designação de "psicopata"). Ainda agora comecei a leitura, mas já a aconselho vivamente.

20 de março de 2012

Da esperança

(Georges Braque, Little Bay at La Ciotat, 1907)

O pescador pensou que a natureza tinha uma inteligência impressionante, e que havia de saber sobre a sua vida, havia de entender o seu desejo e havia de lhe acudir. O Crisóstomo, ali sozinho (...), abriu a boca e falou. (...) Acontecia assim porque, aos quarenta anos, o Crisóstomo assumiu a tristeza para reclamar a esperança(...) A natureza, quieta a ser só inteligente e quieta, não disse nada, nem o Crisóstomo esperaria ouvir uma voz. A esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta..
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(Valter Hugo-Mãe, 'O Homem que era só Metade' In 'O Filho de Mil Homens', 2011) 

28 de fevereiro de 2012

Felicitações Literárias

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Parabéns a Mário Cláudio*, um dos meus escritores contemporâneos preferidos (ou talvez devesse dizer o meu escritor preferido), que ontem foi distinguido com o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para melhor obra de ficção narrativa, com o livro Tiago Veiga - uma biografia. Trata-se de uma honrosa distinção a somar às muitas que já recebeu (há mesmo quem defenda que se fosse uma personalidade mais mediática e extrovertida, há muito que teria maior reconhecimento internacional, inclusive da Academia Nobel...). Já aqui referi algumas das suas obras, como foi o caso de Amadeo (sobre o pintor Amadeo de Souza Cardoso), mas sou incapaz de seleccionar um livro entre todos os outros. Deixo algumas sugestões adicionais, com a ressalva de que a minha opinião é suspeita, ainda que vivamente as aconselhe! Assim, e sem ordem de preferência, aqui ficam:
Boa Noite, Senhor Soares (inspirado no pseudo-heterónimo de Fernando Pessoa);
Guilhermina (sobre a famosa violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia); e 
Ursa Maior (um verdadeiro "unputdownable", que por sorte foi o primeiro que li do autor e me tornou incondicional. Integrado numa trilogia literária, cujos títulos se inspiram em constelações, a este livro juntam-se ainda Orion e Gémeos).

*Pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa
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(Imagem daqui)

8 de dezembro de 2011

Da Rádio e da Literatura

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(Assinatura de Aquilino Ribeiro, aqui)
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Cada vez mais, aprecio a rádio. Incontestavelmente, enganaram-se os que vaticinaram a sua queda com o advento da televisão e, mais tarde, de outros meios audiovisuais. Há programas, temáticas e estilos para todos os gostos. Já aqui dei o exemplo da ópera. Desta vez, o protagonismo cabe à literatura. Fernando Alves, autor de belíssimos programas na TSF, convida-nos para a Rádio de Histórias, um pequeno e sublime momento dedicado ao universo da literatura infanto-juvenil. No passado dia 7, em visita a uma livraria do Porto, o destaque foi para O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro: grandiloquente e incomparável mestre das letras. A citação escolhida desvenda o início  da obra e, estou em crer, aguça o desejo da sua leitura. Reza assim:  Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas, raposa matreira, vagueira, lambisgueira, corria os bosques farejando, batendo mato, sem conseguir deitar a unha a outra caça além de uns míseros gafanhotos, nem atinar com um abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado... Para os que ainda não tiveram oportunidade de conhecer o texto, e porque esta literatura não discrimina idades, aqui ficam a partilha e a sugestão.
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6 de novembro de 2011

BD para os dias que correm...

(Toda a Mafalda,do incomparável Quino, 4ª ed., 1978, D. Quixote)
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20 de janeiro de 2011

Do sentido da vida...

Mais tarde, reviu a sua opinião a respeito do pai. (...) Walden admitia que herdara alguns dos valores dele: o amor pelo conhecimento, o racionalismo e a crença de que o trabalho é a justificação para se existir.*

Será?

*(In 'O Homem de Sampetersburgo' de Ken Follett, ed. Bertrand, 2009)
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6 de dezembro de 2010

Eufemismos...

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"I'm not confused. I'm just well mixed".

(Robert Frost,1874-1963, poeta Americano, Prémio Pulitzer da Poesia)
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1 de dezembro de 2010

Viktor Frankl ou 'A tese do optimismo trágico'

Viktor Frankl costuma perguntar aos seus pacientes: 'porque não opta pelo suicídio?'  É a partir das respostas a essa pergunta que (... procura) tecer esses débeis filamentos de uma vida arruinada, para construir com eles um padrão firme, com sentido e responsabilidade... Para um escritor que enfrenta com coragem a ubiquidade do sofrimento, ele assume uma visão surpreendentemente positiva da capacidade humana de transcender uma situação difícil e descobrir uma adequada verdade orientadora.
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(Gordon W. Allport no prefácio à 3ª edição americana de 'Man's search for meaning')

(Viktor Frankl nasceu em Viena em 1905. Psiquiatra e psicoterapeuta, viveu, na primeira pessoa, a experiência de ser um prisioneiro comum em diferentes campos de concentração entre 1942 e 1945. Foi o único sobrevivente de um núcleo familiar que incluía a sua esposa, grávida quando feita prisioneira, os pais e o irmão. Após a II Guerra, escreveu, em apenas 9 dias, "Man's search for Meaning'*, onde relata a indizível experiência do campo de concentração e reflecte sobre as estratégias, essencialmente psicológicas, de sobrevivência em condições inimagináveis. Foi co-fundador da Logoterapia, publicou dezenas de livros, desenvolveu a tese do 'Optimismo Trágico' e viveu até aos 92 anos.)
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*Em Portugal o livro está publicado pela Editora Vozes, desde 2009, em parceria com a Editora Sinodal (Brasil),  e com o título 'Em busca de sentido'.
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(mais informações @ Viktor Frankl Institute)
(Imagem dali)

25 de setembro de 2010

wishful thinking for the weekend...

(citação de Henry David Thoreau, Nova Iorque - library way)

22 de setembro de 2010

Da transcendência


'A natureza e a vida humana são tão diversas como as nossas inúmeras constituições. Quem saberá que perspectiva oferece a vida a outro? Poderia haver milagre maior do que podermos ver através dos olhos de outrem por instantes? Deveríamos viver em todas as épocas do mundo numa hora. Melhor, em todos os mundos das épocas! História, Poesia, Mitologia! Não conheço leitura da experiência do outro tão surpreendente e instrutiva como esta seria'.
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(Henry David Thoreau, in 'Walden', 1854 - ed. portuguesa 'Onde Vivi e para que Vivi', Quasi Ed., 2008)
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(Pintura de John McCormick, 'Thoreau 3', sd.)

18 de setembro de 2010

Do amor e do poeta



Hoje, desafiaram-me a falar de amor. A única coisa que me ocorreu foi esta intrigante asserção do poeta: Ama como começa a estrada.
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(Mário Cesariny in 'Pena Capital', 1957)




(Carlos Botelho, 'Mário Cesariny', 2010)

16 de setembro de 2010

Correspondência felídea

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Minha Querida Maria Helena
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A sua carta inter-gatos é das coisas mais lindas que já li - não tem resposta, como as obras-primas. A única coisa que eu sei é enviar-lhe um dia destes uma radiografia muito bonita da Anna Blume que, coitada, não tem árvores, nem quintal nem telhados por onde malandrar e se escapuliu uma noite destas para a rua. (...) Uma pequena lesão, erradamente atribuída a gato galante, que não fazem assim, prendeu-lhe a fabulosa cauda por uns dias e daí o retrato interior. É lindo, como há-de ver. E de uma simplicidade aterradora (parece um Picabia) em corpo tão complexo, tão vivo e secreto. 

(Mário Cesariny in Gatos Comunicantes - correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952 - 1985; Serigrafia do autor)

7 de setembro de 2010

Ler, devia ser proibido!

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'Pensando a respeito, eu acho que ler devia ser proibido. Nada contra quem lê. Mas em certas coisas não se duvida, e ler não é nada bom. A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade. A leitura tira o Homem de sua vida pacata e o transporta a lugares nada convencionais… Para uma criança, o perigo é ainda maior, porque ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo, e querer até mudá-lo! Dá para imaginar? E outra coisa: ler pode estimular a criatividade e você não quer uma criancinha ‘bancando’ o geniozinho por aí… Quer? Além disso, a leitura pode tornar o Homem mais consciente, e ia ser uma confusão se todo o mundo resolvesse exigir o que merece. Nada de vagar pelos caminhos da imaginação, simplesmente porque leu um bom livro. Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer. Quer um conselho? Silêncio! Ler, só serve aos sonhadores, e sua vida não é uma brincadeira. Cuidado! Ler, pode tornar as pessoas… perigosamente mais humanas'. (Universidade Salvador, Bahia).

2 de setembro de 2010

Loucura... bovina?

(Imagem daqui)
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Uma das coisas mais deliciosas que li nos últimos tempos chama-se Quantas Madrugadas tem a Noite. Obra de Ondjaki, escritor Angolano e um jovem valor literário com provas dadas. A determinada altura do livro, um 'muadiê', narrador participante, discorre sobre a estratégia europeia para a encefalopatia espongiforme bovina nos seguintes termos: 'Ai num sabes?, lá nas europas tão a matar vacas só à toa, só por causa duma loucurazita, aqueles muadiês não batem bem ... Nós aqui mesmo, nosso país, nossas guerras... porra, se desconfiam que uma vaca tá louca - vaca pode ficar louca? quando muito, tá confusa! - mas se desconfiam só, pronto, pode ser uma, mas vão abater já mil. Meu, ouve só a minha ideia... mandar todas vacas aqui, vamos lhes receber no porto, festa e cortejo já e tudo. Vamos com as vacas pro campo... festa das minas, mas não só - elas rebentam e ficam logo semigrelhadas. ... eu mesmo seria o primeiro grelhador das vacas loucas, todas minas descobertas e carne pronta... Minha ideia, uí, mas te autorizo a revelar'.
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(Ondjaki in ´Quantas Madrugadas tem a Noite', 2004, Ed Caminho).

24 de agosto de 2010

'Carmen' e a origem proverbial

(Eduoard Manet, Portrait of Emilie Ambre in the Role of Carmen, 1880)

Terminei a leitura de 'Carmen', obra mais conhecida pela soberba ópera de Bizet do que pela autoria de Prosper Mérimée. No final do livro, o autor cita em Rommani, Língua dos ciganos, um provérbio sobejamente conhecido, mas cuja origem, pessoalmente, ignorava: En retudi panda nasti abela macha, que é como quem diz 'Em boca fechada não entra mosca'. Não há dúvida que em circunstâncias específicas é um provérbio de boa memória!

14 de agosto de 2010

(Des)Equilíbrio...

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Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

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- Como quereis o equilíbrio?
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(David Mourão-Ferreira)

13 de julho de 2010

O Beijo...

(Por Mario Goren, 'Black Skimmer' in National Geographic's Photo of the Day, 2010)

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
(…)
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
*
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
*
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta! Três!
(…)
(João de Deus in 'Campo de Flores', 1893)

28 de junho de 2010

Versando sobre a Lua...

(Tarsila do Amaral, A Lua, 1928)
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Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
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(Cecília Meireles, 'Lua adversa' in "Flor de Poemas", 1983)

9 de junho de 2010

Amo de ti...

Pintura de Jerrika C. Shi (Filipinas) aos 10 anos de idade (2007)

"Amo de ti" é uma frase da autoria de Dinis Catambas, brilhantemente produzida do alto dos seus 2 (dois) anos de idade. "Amo de ti" é também o título do último volume do "Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa". Uma louvável iniciativa do Instituto Piaget, nascida em 1989 e com duração prevista de 30 anos. Tudo o mais encontra-se aqui.