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9 de junho de 2010

Amo de ti...

Pintura de Jerrika C. Shi (Filipinas) aos 10 anos de idade (2007)

"Amo de ti" é uma frase da autoria de Dinis Catambas, brilhantemente produzida do alto dos seus 2 (dois) anos de idade. "Amo de ti" é também o título do último volume do "Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa". Uma louvável iniciativa do Instituto Piaget, nascida em 1989 e com duração prevista de 30 anos. Tudo o mais encontra-se aqui.

2 de junho de 2010

Alimentemo-nos de(stas) palavras

Trouxe as palavras e colocou-as sobre a mesa.
Trouxe-as dentro das mãos fechadas (…)
Pousou-as na mesa e começou a abri-las devagar,
tão devagar como passa o tempo quando o tempo não passa.
E depois distribui-as pelos outros,
multiplicou-se em dedos, em palavras (alguém disse
que chegariam a todos, ultrapassariam os séculos e
teriam a duração do tempo quando o tempo perdura).(…)
Quando se ergueu, havia ainda palavras sobre a mesa,
coisas por dizer no resto do pão que alguém deixara (…)


(Maria do Rosário Pedreira, A última Ceia, in “A casa e o cheiro dos livros”, 1996)

29 de abril de 2010

Da dança ou... do estar entre céu e chão

.

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança - não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão (...)

(Carlos Drummond de Andrade,´A Dança e a Alma`
in "Antologia Poética", 1960)

(29 de Abril, Dia Mundial da Dança ou... de uma expressão ímpar do génio humano)

27 de abril de 2010

Com eco... eco... eco...

.
No fundo eu não sinto____minto minto minto
Como sou burguês_______vês? vês? vês?
Vou ao baile baile_______aile aile aile
Mas não sei dançar______ar ar ar

Visto de setim__________sim não sim
Vou depressa e bem_____olha quem
Eu sei que serei_________rei
Do mundo que vem______mui to bem

Bate coração___________ão! ão! ão!
Palhaço em Palheiro_____mário de sá-carneiro
Meu golpe de vista_______fu-tu-ris-ta
Tapa a boca Oh_________pó-ni-pi-ni-pó
Tapa a Boca Oh_________pó-ni-pi-ni-pó
tApa a bOca Oh
taPa a boCa Oh
tapa a boca sim__________Fim.

Nota – Braço-braço?!;:…-

(Mário Cesariny, "Fantasia Gramática e Fuga (com eco)" in "Nobilísima Visão", 1959)

25 de abril de 2010

A todos aqueles que o proporcionaram...

.


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

(Sophia de Mello Breyner, "25 de Abril"
in "Antologia", 1975)



(Imagem daqui)

12 de março de 2010

"MagnifiCAT"

..


Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto (...)
.
(José Jorge Letria, "Ode ao Gato" in "Animália Odes aos Bichos", 2002)

8 de março de 2010

* "Bread and Roses"...

..
Aqui fica a inspiração, com os votos de um feliz "Dia da Mulher" para tod@s

As we come marching, marching in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: "Bread and roses! Bread and roses!"

As we come marching, marching, we battle too for men,
For they are women's children, and we mother them again.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!

As we come marching, marching, unnumbered women dead
Go crying through our singing their ancient cry for bread.
Small art and love and beauty their drudging spirits knew.
Yes, it is bread we fight for -- but we fight for roses, too!

As we come marching, marching, we bring the greater days.
The rising of the women means the rising of the race.
No more the drudge and idler - ten that toil where one reposes,
But a sharing of life's glories: Bread and roses! Bread and roses!
 
(James Oppenheim, 1911)

21 de fevereiro de 2010

Fim de semana

(Do que houve que descer para alcançar o céu ou...
porque é fim-de-semana e não há como O'Neill)


Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

(Alexandre O´Neill, Fim-de-semana,
In "Poesias Completas, 1984)



(Oahu Beach, fotografia de John Callahan)

7 de fevereiro de 2010

Invictus ou... Inspirador "Madiba"

.....................................................................................
Black as the pit from pole to pole,
Out of the night that covers me,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul. 

(William Ernest Henley, "Invictus", in "Henley's Book of Verses", 1888)

..........No filme ouve-se ainda: "Aqui começa a nação do arco-íris. Aqui começa a reconciliação.
........Aqui começa o perdão. O perdão liberta a alma". Aqui, "inspiração" é a palavra omnipresente.

31 de janeiro de 2010

Louca e imprescindível Esperança...

..
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E

- ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mário Quintana, "Esperança" in Antologia Poética, 1997)

17 de janeiro de 2010

Para quem tudo tem de recomeçar...

..
..
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

(Antonio Machado, Proverbios y Cantares, XXIX,
in "Campos de Castilla", 1912)

12 de janeiro de 2010

Porque qualquer altura é boa para bem desejar...

...
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

(Desejos, Carlos Drummond de Andrade)

3 de janeiro de 2010

Reçomeçemos... sempre! Sem dia nem hora marcados

.
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
(...)
(Papel em Branco daqui)                                                                                                                  (Miguel Torga in Diário XII, 1974)

21 de dezembro de 2009

Reverenciando a arte "popular"

..


Não é só na grande terra
que os poetas cantam bem:
os rouxinóis são da serra
e cantam como ninguém
(...)
Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
do que alcança a nossa vista!

António Aleixo in Este Livro Que Vos Deixo (1969)



Nerival Rodriges (pintor Naif ), Colheita do café (2009)

18 de dezembro de 2009

Previdente...

..


..
Uma coisa é colher
Outra é plantar
Colheita é receber
Plantio é dar
Não faça com que a pressa de colher,
estrague o seu momento de plantar..
.
(Geir Campos)




(Diego Rivera, Cargador de Flores, 1935)

10 de dezembro de 2009

Reflexos...

.




Anarda, que se apura
Como espelho gentil da fermosura,
Num espelho se via,
Dando dobrada luz ao claro dia;
De sorte que com próvido conselho
Retrata-se um espelho noutro espelho

(Manuel Botelho de Oliveira, Anarda vendo-se a um espelho, séc. XVII)





(Pablo Picasso, Mulher ao Espelho, 1932)

8 de dezembro de 2009

Sensata Acromatopsia

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio. 

(António Gedeão, "Lágrima de Preta" in Máquina de Fogo, 1961)
(Imagem: Milan Mrkusich, Achromatic Grey, 1977) ..

30 de novembro de 2009

Léxico-filia ou... Inimitável O´Neill

..
1. Há palavras que nos beijam                                2. Palavras nuas que beijas
    Como se tivessem boca,                                              Quando a noite perde o rosto,    
    Palavras de amor, de esperança,                           Palavras que se recusam
    De imenso amor, de esperança louca.                  Aos muros do teu desgosto. 

3. De repente coloridas                                            4. (O nome de quem se ama    
    Entre palavras sem cor,                                            Letra a letra revelado    
    Esperadas, inesperadas                                             No mármore distraído,   
    Como a poesia ou o amor.                                        No papel abandonado)

                                            5. Palavras que nos transportam
                                                 Aonde a noite é mais forte,
                                                   Ao silêncio dos amantes
                                                 Abraçados contra a morte.*

                  
                                              (Boris Shelegov, Amour, 1999)

*(Alexandre O´Neill In "Uma Coisa em  Forma de Assim")

25 de novembro de 2009

Sabedoria Paradoxal



Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo, como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou – que doideira – um louco de juízo.

("Disquisição na Insónia" In Impurezas do Branco
de Carlos Drummond de Andrade)



(D. Quixote, Henrique Gabriel)