(Georges Braque, Little Bay at La Ciotat, 1907)
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(Valter Hugo-Mãe, 'O Homem que era só Metade' In 'O Filho de Mil Homens', 2011)
"Trouxe as palavras e colocou-as sobre a mesa" (Mª do Rosário Pedreira)
Parabéns a Mário Cláudio*, um dos meus escritores contemporâneos preferidos (ou talvez devesse dizer o meu escritor preferido), que ontem foi distinguido com o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para melhor obra de ficção narrativa, com o livro Tiago Veiga - uma biografia. Trata-se de uma honrosa distinção a somar às muitas que já recebeu (há mesmo quem defenda que se fosse uma personalidade mais mediática e extrovertida, há muito que teria maior reconhecimento internacional, inclusive da Academia Nobel...). Já aqui referi algumas das suas obras, como foi o caso de Amadeo (sobre o pintor Amadeo de Souza Cardoso), mas sou incapaz de seleccionar um livro entre todos os outros. Deixo algumas sugestões adicionais, com a ressalva de que a minha opinião é suspeita, ainda que vivamente as aconselhe! Assim, e sem ordem de preferência, aqui ficam:
«Na noite em que Atenas voltou a arder, Manolis Glezos foi barrado pela polícia quando pretendia entrar no parlamento. (...) O octogenário de bigode branco e olhos azuis disse com a dignidade de um velho resistente aquilo que Venizelos, o ministro das Finanças, entredisse mais tarde, na outra margem do desespero: "Há vários países que já não nos querem". Esta constatação de que a Europa das contas certas se dá ao luxo de descartar uma das suas partes como se apagasse uma parcela errada, esta ideia de que o controlo da dívida justifica o abandono de valores estruturantes, fundadores, da própria ideia de Europa, é já explicitada com o despudor e a desfaçatez dos cobradores de fraque. Karolos Papoulias, o presidente grego, (...) veio lembrar-nos que os europeus lutaram juntos no passado. (...) Ora desse passado (...) há, ainda, mesmo que aparentemente residuais, contas por saldar. Foi o que Manolis Glezos gritou à porta do parlamento na noite em que Atenas voltou a arder. Ele lembrou que Hitler obrigara o Tesouro grego a emprestar dinheiro ao III Reich. 100 milhões de euros, às contas de hoje. Berlim pagou dívidas semelhantes a outros países, depois da guerra. Mas nunca saldou a dívida que tem perante a Grécia, agora "descartável". Quem é o (...) o velho resistente Manolis Glezos (?). Quem é este homem? É aquele que num certo 30 de Maio de 1941, retirou a bandeira nazi da Acrópole. De Gaulle chamou-lhe "o primeiro partisan da Europa". (...) Escorados na memória e nos valores que fundaram a Europa, Manolis Glezos e Mikis Teodorakis, ambos antigos resistentes e antigos deputados, estiveram à porta do parlamento, na noite em que Atenas voltou a arder. Diante da força policial que os barrou, eles repetiram Zorba, o Grego, a cena em que Zorba abre os braços e grita para o companheiro: - "Alguma vez viste um desastre mais esplêndido?". Zorba, o que dança na praia de Stravos, levado pela música de Teodorakis. Chamavam-lhe "Epidemia". Porque espalhava o caos.».
Por estes dias chega a Portugal a vaga de frio que tem assolado a Europa. A comunicação social anuncia que autarquias e instituições várias reforçam o apoio "aos sem-abrigo". Pessoalmente, abomino esta expressão. Categorias, como esta, remetem aquele que é humano para um plano abstracto, "coisificam-no", tornando-o invisível para muitos e aliviando a consciência de outros tantos. Não são "os sem-abrigo". São pessoas sem abrigo. São a Maria, o António, o José, o João e tantos outros, privados de condições condignas de subsistência. Se sentem frio, fome, dor, ou a simples necessidade de um banho, não dispõem de meios imediatos para os enfrentar; mas a matéria de que são feitos é idêntica à nossa. Não há os "sem abrigo" e os "outros". Há, tão-somente, pessoas.