1 de maio de 2012

1º de Maio: muito por fazer

Nada está feito enquanto resta alguma coisa por fazer.
(Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura em 1915)
(Imagem daqui)

24 de abril de 2012

Por toda a gente, 25 de Abril Sempre!


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
.
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
.
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
.
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
.
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
.
(Sophia de Mello Breyner Andresen, 'Esta Gente' In 'Geografia', 1967, ed. Ática)
.
(Liberdade1984, Cartaz de Vieira da Silva comemorativo do 10º aniversário do 25 de Abril de 1974)

16 de abril de 2012

Ouvido (2)




O difícil faz-se já.
O impossível só demora mais um bocadinho.


(Ouvi a alguém esta citação. Desconheço-lhe a origem. Mas tenho para mim que dava uma boa definição de "utopia").





(Imagem: M. C. Escher, da colecção Simetrias. In Site Oficial)

9 de abril de 2012

Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

(Ruy Belo, "O Portugal futuro" In "Todos os Poemas", Ed. Assírio & Alvim, 2004)


      (Património Português: Castelo de Santa Maria da Feira, Agosto de 2011)

27 de março de 2012

Serpentes engravatadas

Desengane-se quem pensa que todos os psicopatas se comparam ao protótipo de "Jack, o estripador" ou de "Hannibal Lector": geralmente sanguinários, anti-sociais e reconhecíveis pelas maiores atrocidades. Não. Também os há de fato e gravata; a comandar grandes empresas, instituições de renome, entidades financeiras e equipas de trabalho várias. É exactamente sobre esses que versa o livro de base científica "Snakes in suits: when psychopaths go to work" (infelizmente não traduzido para português). Da autoria de dois peritos em psicopatia (Paul Babiak e Robert Hare), a obra retrata como "qualidades" de liderança, carisma superficial, convicção, flexibilidade moral e ética, capacidade de correr riscos, ambição ou manipulação podem resultar numa escolha perigosa (estimada em 10% dos casos) e invariavelmente destrutiva (para uns quantos ou para muitos). O principal problema não residirá na maioria dos requisitos mas, antes, no facto de muitos deles encaixarem "como uma luva" na personalidade anti-social (termo técnico para a vulgar designação de "psicopata"). Ainda agora comecei a leitura, mas já a aconselho vivamente.

20 de março de 2012

Da esperança

(Georges Braque, Little Bay at La Ciotat, 1907)

O pescador pensou que a natureza tinha uma inteligência impressionante, e que havia de saber sobre a sua vida, havia de entender o seu desejo e havia de lhe acudir. O Crisóstomo, ali sozinho (...), abriu a boca e falou. (...) Acontecia assim porque, aos quarenta anos, o Crisóstomo assumiu a tristeza para reclamar a esperança(...) A natureza, quieta a ser só inteligente e quieta, não disse nada, nem o Crisóstomo esperaria ouvir uma voz. A esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta..
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(Valter Hugo-Mãe, 'O Homem que era só Metade' In 'O Filho de Mil Homens', 2011) 

12 de março de 2012

Da Barbárie (ou um "post" incómodo)

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Recentemente ouvi no telejornal que um dos programas mais vistos na China (por cerca de 100 milhões de pessoas) consiste num "reality show" onde uma jornalista entrevista condenados à pena de morte que estão prestes a ser executados. O programa não só se transformou num fenómeno de popularidade, como é incentivado pelo governo do país, com o pretexto de um desejado efeito dissuasor sobre potenciais criminosos. Ora, na China, os crimes elegíveis para pena de morte rondam os 50, e variam entre homicídio e roubo. Como é pendor de todo o "reality show", o "espectáculo" é largamente promovido e inclui imagens da família em desespero. Como se nota, o regozijo com o sofrimento alheio não é apanágio do passado (os circos romanos, a queima das "bruxas" e outros "divertimentos" que tais eram assistidos e aplaudidos por muitos). Infelizmente, a curiosidade mórbida persiste. E, como tal, a pergunta impõe-se: será a mão que aperta o gatilho o único dos homicidas?

(Imagem: Desenho de Lasar Segall, 1940-1943, do caderno visões da guerra)