19 de maio de 2012

Patolexia?


Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença (...). Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente? O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois  sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. (...) O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser  uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro.
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In 'O Filho de Mil Homens', Valter Hugo Mãe, ed. Aleaguara, 2011
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Imagem: Pierre-Auguste Renoir, La liseuse, 1874-76

11 de maio de 2012

Do absurdo da vida

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Morreu Bernardo Sassetti, um músico tão virtuoso quanto promissor. Já aqui falei de um dos seus concertos a que tive o privilégio de assistir. Ao que parece, terá caído de uma falésia. Aos 41 anos. Todas as mortes são estúpidas, mas as mortes por acidente superam qualquer capacidade de compreensão. Lamento profundamente esta perda para a cultura Portuguesa. Ficamos terrivelmente depauperados.

8 de maio de 2012

'A fronteira de asfalto': uma pequena preciosidade


Da conjugação de generosidades nasceu esta pequena preciosidade. De um lado, a generosidade literária do celebrado José Luandino Vieira e, do outro, a generosidade gráfica de Alberto Péssimo. Juntas, deram forma a esta edição da Letras & Coisas, uma publicação destinada a apoiar a ASAS. O argumento é tão simples e belo quanto intemporal: a história de uma amizade impedida pelo preconceito. O asfalto delimita a fronteira entre dois mundos contrastantes, porque do outro lado da rua asfaltada não havia passeio. Nem árvores de flores violeta. ... E (Ricardo) lembrava-se do tempo em que não havia perguntas, respostas, explicações. Quando ainda não havia a fronteira de asfalto (p.9).  

1 de maio de 2012

1º de Maio: muito por fazer

Nada está feito enquanto resta alguma coisa por fazer.
(Romain Rolland, Prémio Nobel da Literatura em 1915)
(Imagem daqui)

24 de abril de 2012

Por toda a gente, 25 de Abril Sempre!


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
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Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
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Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
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E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
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Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
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(Sophia de Mello Breyner Andresen, 'Esta Gente' In 'Geografia', 1967, ed. Ática)
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(Liberdade1984, Cartaz de Vieira da Silva comemorativo do 10º aniversário do 25 de Abril de 1974)

16 de abril de 2012

Ouvido (2)




O difícil faz-se já.
O impossível só demora mais um bocadinho.


(Ouvi a alguém esta citação. Desconheço-lhe a origem. Mas tenho para mim que dava uma boa definição de "utopia").





(Imagem: M. C. Escher, da colecção Simetrias. In Site Oficial)

9 de abril de 2012

Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

(Ruy Belo, "O Portugal futuro" In "Todos os Poemas", Ed. Assírio & Alvim, 2004)


      (Património Português: Castelo de Santa Maria da Feira, Agosto de 2011)