Há pessoas com gostos ecléticos, e eu, definitivamente, incluo-me nesse grupo. No que toca a interesses musicais, a regra mantém-se. Para espanto de alguns, e nem tanto de outros, sempre gostei muito dos Rolling Stones. Não me lembro que idade teria quando os ouvi pela primeira vez, mas lembro-me de os trautear quando ainda não sabia uma palavra de Inglês e a coisa saía mais ou menos assim: ‘ai quén guéééé nou/ sétisfécshannnn…/ ai quén gué nou…’. Claro está que eu não imaginava que me queixava sem qualquer razão. Mas, verdade seja dita, nessa idade eu era inimputável. Uns anos depois, por altura da adolescência, quando as letras das músicas se tornam um imperativo, descobri, graças ao grupo, uma expressão que julgava exclusivamente portuguesa, a saber: “burro-de-carga”. Isto porque, reza a música: “I’ll never be your beast of burden…”. Sempre que ouço a canção, lembro-me invariavelmente do episódio e da consciência crescente, que chega por essa altura da vida, de que o combate à própria ignorância se pode fazer de múltiplas formas. E ainda que a tarefa jamais se conclua, vale sempre a pena persistir nela (mesmo que a expensas de gostos musicais duvidosos…).
(The Rolling Stones, 'Beast of Burden' In Álbum Some Girls, 1978)