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21 de agosto de 2018

Manoel de Barros
por Glen Batoca (2017)

9 de abril de 2012

Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

(Ruy Belo, "O Portugal futuro" In "Todos os Poemas", Ed. Assírio & Alvim, 2004)


      (Património Português: Castelo de Santa Maria da Feira, Agosto de 2011)

10 de fevereiro de 2012

Improvisemos...

.
O capricho de um segundo
roubou-me o meu futuro
provisoriamente inteiro.
Hei-de reconstruí-lo ainda mais belo
como o imaginava desde o princípio.
Hei-de reconstruí-lo sobre esta terra firme
que se chama a minha vontade.
Hei-de elevá-lo sobre os altos pilares
que se chamam o meu ideal.
Hei-de dotá-lo de um subterrâneo secreto
que se chama a minha alma. (...).
(Edith Södergran, poema declamado aqui)

(Kandinsky, Improvistion 28, 1912)

(Porque nos tempos que correm, improvisar é preciso. E porque a arte expressionista, como a pintura ou a poesia que aqui se ilustram, pode ser extremamente inspiradora.) 

12 de janeiro de 2012

Interpelação para dias frenéticos

.

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar a luz
a vida terá princípio.
.
(Pedro Tamen, Poema 23 in O livro do sapateiro, 2010, Ed. Dom Quixote)
.
(Pintura de Edward Hopper, Night Windows, 1928)

3 de dezembro de 2011

Do conhecimento e da sabedoria

The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuit.
O perpetual revolution of configured stars,
O perpetual recurrence of determined seasons,
O world of spring and autumn, birth and dying
The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, and ignorance of the Word.
All our knowledge brings us nearer to our ignorance,

(...)
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
.
(T. S. Eliot para a peça de teatro The Rock, 1934)
.

16 de junho de 2011

Paraíso de um poeta maior

[David Mourão-Ferreira (24/02/1927 - 16/6/1996),
Paraíso In "Infinito Pessoal", 1959-1962]
.
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
.

(Imagem daqui)

20 de maio de 2011

Silêncio Prolixo



Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

(Pablo Neruda In 'Vinte poemas de amor e uma canção desesperada', Poema XV, Ed. D. Quixote)
.

25 de abril de 2011

As Portas que Abril Abriu

(...)
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
(...)
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
(...)
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse

e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

(José Carlos Ary dos Santos, As Portas que Abril Abriu, 1975)
Imagem: Cartaz de Maria Helena Vieira da Silva
.

1 de abril de 2011

Neruda sem pAR

Andando en un camino / encontré al aire,
lo saludé y le dije / con respeto:
“Me alegro / de que por una vez
dejes tu transparencia, / así hablaremos”.

Él incansable, / bailó, movió las hojas,
sacudió con su risa / el polvo de mis suelas,
y levantando toda / su azul arboladura,
su esqueleto de vidrio, / sus párpados de brisa,
inmóvil como un mástil / se mantuvo escuchándome.

Yo le besé su capa / de rey del cielo,
me envolví en su bandera / de seda celestial
y le dije:
monarca o camarada, / hilo, corola o ave,
no sé quien eres, pero / una cosa te pido,
no te vendas.

El agua se vendió / y de las cañerías
en el desierto / he visto
terminarse las gotas / y el mundo pobre, el pueblo
caminar con su sed / tambaleando en la arena.
Vi la luz de la noche / racionada,
la gran luz en la casa / de los ricos.
Todo es aurora en los / nuevos jardines suspendidos,
todo es oscuridad / en la terrible / sombra del callejón.
(…)
No, aire,
no te vendas,
que no te canalicen,
que no te entuben,
que no te encajen
ni te compriman,
que no te hagan tabletas,
que no te metan en una botella,
cuidado!

llámame
cuando me necesites,
yo soy el poeta hijo / de pobres, padre, tío,
primo, hermano carnal / y concuñado
de los pobres, de todos, / de mi patria y de las otras,
(…)
y por eso / yo quiero que respiren,
tú eres lo único que tienen,

por eso eres / transparente,
para que vean / lo que vendrá mañana,
por eso existes, / aire,
déjate respirar, / no te encadenes,
no te fíes de nadie / que venga en automóvil
a examinarte,
déjalos,
ríete de ellos,
vuélales el sombrero,
no aceptes / sus proposiciones,

vamos juntos
bailando por el mundo,
(…)
nos queda mucho
que bailar y cantar,

vamos
a lo largo del mar,
a lo alto de los montes,
vamos
donde esté floreciendo / la nueva primavera
y en un golpe de viento / y canto
repartamos las flores, / el aroma, los frutos,
el aire
de mañana.

(Pablo Neruda, Oda al Aire in 'Odas Elementales', 1954, Ed. Losada)
.

21 de março de 2011

Primavera à vista

O dia abre os olhos e penetra
numa primavera antecipada.
Tudo o que as minhas mãos tocam voa.
O mundo está cheio de pássaros.

(Octavio Paz, 'Primavera à vista' in Antologia Poética, Ed. Dom Quixote)
.

17 de fevereiro de 2011

Algún dia...

Algún dia te escribiré un poema que no
mencione el aire ni la noche;
un poema que omita los nombres de las flores,
que no tenga jazmines o magnolias.
Algún día te escribiré un poema sin pájaros,
sin fuentes, un poema que eluda el mar
y que no mire a las estrellas.
Algún día te escribiré un poema que se limite
a pasar los dedos por tu piel
y que convierta en palabras tu mirada.
Sin comparaciones, sin metáforas;
algún día escribiré un poema que huela a ti,
un poema con el ritmo de tus pulsaciones,
con la intensidad estrujada de tu abrazo.
Algún día te escribiré un poema, el canto de mi dicha.


(Darío Jaramillo Agudelo, 'Algún dia' in Poemas de Amor, 1986) .

14 de janeiro de 2011

Prece a Afonso Henriques

(que bem precisamo dela)

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro.
e a tua inteira força!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Centro Atlântico, 2010)
.

4 de janeiro de 2011

Perspectiva...

Neste mundo
Por cima do Inferno
Contemplo as flores

(Issa Kobayashi, Primeira Neve, 1763-1827)
.

24 de novembro de 2010

Entreprise Impossi(vel)ble

(Maria Helena Vieira da Silva, Entreprise Impossible, 1967)

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade./ Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia./ O último trovador morreu em 1914./ Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples./ Se quer fumar um charuto aperte um botão./ Paletós abotoam-se por eletricidade./ Amor se faz pelo sem-fio./ Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal/ que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura./ Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram/ e matam-se como percevejos./ Os percevejos heróicos renascem./ Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado./ E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)


(Carlos Drummond de Andrade, O Sobrevivente, in 'Alguma Poesia', 1930)

9 de outubro de 2010

Vacilante...

.
Un amor indeciso se ha acercado a mi puerta...
Y no pasa; y se queda frente a la puerta abierta.

Yo le digo al amor: -¿Que te trae a mi casa?
Y el amor no responde, no saluda, no pasa...

Es un amor pequeño que perdió su camino:
Venía ya la noche... Y con la noche vino.

¡Qué amor tan pequeñito para andar con la sombra!...
¿Qué palabra no dice, qué nombre no me nombra?...

¿Qué deja ir o espera? ¿Qué paisaje apretado
se le quedó en el fondo de los ojos cerrado?

Este amor nada dice... Este amor nada sabe:
Es del color del viento, de la huella que un ave

deja en el viento... -Amor semi-despierto, tienes
los ojos neblinosos aun de Lázaro... Vienes

de una sombra a otra sombra con los pasos trocados
de los ebrios, los locos... ¡Y los resucitados!

Extraño amor sin rumbo que me gana y me pierde,
que huele las naranjas y que las rosas muerde...,

Que todo lo confunde, lo deja... ¡Y no lo deja!
Que esconde estrellas nuevas en la ceniza vieja...

Y no sabe morir ni vivir: Y no sabe
que el mañana es tan sólo el hoy muerto... El cadáver

futuro de este hoy claro, de esta hora cierta...
Un amor indeciso se ha dormido a mi puerta...

(Dulce Maria Loynaz, 'Amor Indeciso' in 'Poesia Completa', 1993)

1 de outubro de 2010

Outubro, o anfitrião

.
October gave a party;
The leaves by hundreds came -
The Chestnuts, Oaks, and Maples,
And leaves of every name.
The Sunshine spread a carpet,
And everything was grand,
Miss Weather led the dancing,
Professor Wind the band.
.
The Chestnuts came in yellow,
The Oaks in crimson dressed;
The lovely Misses Maple
In scarlet looked their best;
All balanced to their partners,
And gaily fluttered by;
The sight was like a rainbow
New fallen from the sky.

Then, in the rustic hollow,
At hide-and-seek they played,
The party closed at sundown,
And everybody stayed.
Professor Wind played louder;
They flew along the ground;
And then the party ended
In jolly “hands around.”

'October’s Party' de George Cooper (1838-1927)

18 de setembro de 2010

Do amor e do poeta



Hoje, desafiaram-me a falar de amor. A única coisa que me ocorreu foi esta intrigante asserção do poeta: Ama como começa a estrada.
.
(Mário Cesariny in 'Pena Capital', 1957)




(Carlos Botelho, 'Mário Cesariny', 2010)

14 de agosto de 2010

(Des)Equilíbrio...

.
Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

.
- Como quereis o equilíbrio?
.
.
(David Mourão-Ferreira)

13 de julho de 2010

O Beijo...

(Por Mario Goren, 'Black Skimmer' in National Geographic's Photo of the Day, 2010)

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
(…)
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
*
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
*
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta! Três!
(…)
(João de Deus in 'Campo de Flores', 1893)

28 de junho de 2010

Versando sobre a Lua...

(Tarsila do Amaral, A Lua, 1928)
.
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
.
(Cecília Meireles, 'Lua adversa' in "Flor de Poemas", 1983)