21 de março de 2011

Primavera à vista

O dia abre os olhos e penetra
numa primavera antecipada.
Tudo o que as minhas mãos tocam voa.
O mundo está cheio de pássaros.

(Octavio Paz, 'Primavera à vista' in Antologia Poética, Ed. Dom Quixote)
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15 de março de 2011

Agnosia

Não sei escrever poesia.
Limito-me a contemplar as palavras.
A acariciá-las.
A dedilhá-las como às contas de um rosário…

Escapam-me.

Afasto-me rendida
desavinda
ressabiada
jurando ignorá-las para sempre.

E de imediato regresso com inexorável urgência
pedindo-lhes que me perdoem o desvario,
numa dependência que é jugo e vício a uma só vez.

Perscruto-as.
Aproximo-me e distancio-me delas, em busca da melhor perspectiva…

Em vão.

É então que de novo desisto...
temporariamente, bem sei.
Até que me subjugue a abstinência
Insidiosa e implacável.

Não sei escrever poesia.

Mas gostava muito...
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12 de março de 2011

Prontidão

"It is not the strongest of the species that survives, nor the most intelligent, but the one most responsive to change."
(Charles Darwin)

[Eis o desafio que se (nos) impõe]
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4 de março de 2011

Nonsense

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Por alguma inexplicável razão, mais ainda porque não sou dada a saudosismos, ultimamente tenho tido frequentes reminiscências da adolescência. A última foi a da lengalenga nonsense que abaixo vos deixo. Efectivamente, não faz qualquer sentido. Mas, nesse particular, assemelha-se a este nosso mundo: profuso em paradoxos incompreensíveis…

Meia noite exactas em ponto:
Um homem nu, com uma espada no bolso,
entra por uma porta fechada.
Senta-se num banco feito de pau-de-pedra
e lê um jornal sem letras, à luz de um candeeiro apagado, que diz:
‘O mundo é uma bola quadrada que gira parada.
Mais vale morrer do 
que perder a vida’.
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(Fonte da Imagem)

27 de fevereiro de 2011

Cativeiro

(Captive, Paul Klee, 1940)

Em homenagem a todos quantos, corajasomente,
lutam pela liberdade individual e alheia.
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17 de fevereiro de 2011

Algún dia...

Algún dia te escribiré un poema que no
mencione el aire ni la noche;
un poema que omita los nombres de las flores,
que no tenga jazmines o magnolias.
Algún día te escribiré un poema sin pájaros,
sin fuentes, un poema que eluda el mar
y que no mire a las estrellas.
Algún día te escribiré un poema que se limite
a pasar los dedos por tu piel
y que convierta en palabras tu mirada.
Sin comparaciones, sin metáforas;
algún día escribiré un poema que huela a ti,
un poema con el ritmo de tus pulsaciones,
con la intensidad estrujada de tu abrazo.
Algún día te escribiré un poema, el canto de mi dicha.


(Darío Jaramillo Agudelo, 'Algún dia' in Poemas de Amor, 1986) .

8 de fevereiro de 2011

A(O)caso

* Quando no mesmo dia somos confrontados com a morte de duas pessoas conhecidas, mas não relacionadas entre si, assola-nos, de forma súbita e pungente, toda uma erupção de interrogações. Como por exemplo: qual é a probabilidade de uma tal coincidência ocorrer? Porque razão estas notícias nos encontram sempre desprevenidos, mesmo na iminência de sucederem? E se acontecem diariamente a tantos anónimos, porque nos parecem tão aberrantes quando tocam os que nos são próximos? (…) E, para além de muitas outras, ecoa persistentemente a ideia da incontrolabilidade do que é imponderável. Neste particular, qualquer pessoa é elegível, tudo depende de uma combinação de possibilidades aparentemente infinita e parcialmente aleatória. Senão vejamos: ele era idoso, ela era jovem; ele viveu para ver os netos, ela não presenciará o crescimento da filha; ele estava internado há duas semanas, ela lutava há anos com internamentos sucessivos; ele não teve muito sucesso, ela foi bem sucedida na curta carreira profissional; etc., etc., etc. Como se nota, não há propriamente um padrão, mas não sei se haverá unicamente acaso. Aliás, costumo dizer que o acaso nunca é uma variável desprezível, mas se assim fosse, a própria noção de acaso ficaria abalada… E no meio deste turbilhão de ideias lembrei-me de uma história que me contaram, tomada por lenda da tradição oral oriental, e que reza mais ou menos assim:

Num tempo longínquo, um abastado Senhor Árabe enviou um dos seus melhores serventes ao mercado de Bagdad. Pouco tempo depois de haver partido, o jovem regressa esbaforido e pálido, suplicando ao seu amo que lhe conceda os melhores cavalos que possui, a fim de escapar a toda a pressa para a distante Samarcanda. Surpreendido, o amo indaga a razão de tal pedido. Entre soluços, o servente explica-lhe que ao chegar ao mercado, uma mulher esguia, de capuz na cabeça e longas vestes negras, o havia fitado ameaçadoramente. Nesse momento, o jovem percebeu, aterrorizado, que se tratava da Morte. O seu amo, comovido com o acontecimento, concede os cavalos pedidos e o jovem põe-se imediatamente em fuga. Ainda mal refeito do sobressalto, o amo resolve ir ao mercado, ao encontro de dita figura. Ao vê-la, perguntou-lhe: -“Diz-me, Morte, porque fitaste ameaçadoramente o meu servente? Acaso não sabes que ele é jovem e bondoso?”, ao que a Morte terá respondido: -”O meu olhar não foi de ameaça, mas sim de surpresa, porque esta noite tenho marcado, com ele, um encontro em Samarcanda”.

*(Imagem: 'The Wheel of Fortune', Sir Edward Burne Jones, 1863, Musée d'Orsay)