23 de dezembro de 2010

Para todos, sem excepção

...faço meus os votos de John Lennon, que aqui ficam materializados nas palavras.

and so this is Christmas/ I hope you have fun/ the near and the dear ones/
the old and the young

a very Merry Christmas/ and a Happy New Year/ let's hope it's a good one/ without any fear

and so this is Christmas/ for weak and for strong/ the rich and the poor ones/ the road is so long

and so happy Christmas/ for black and for white/ for the yellow and red ones/ let's stop all the fight

a very Merry Christmas/ and a Happy New Year/ lets hope it's a good one/ without any fear
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20 de dezembro de 2010

Vou! Vamos?

À Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão, apreciar 'Por toda a parte-Julio'. A exposição reúne um significativo espólio de mais de 100 obras de Júlio Maria dos Reis Pereira: irmão de José Régio, 'Julio' na pintura, Saúl Dias na poesia e Júlio Pereira na engenharia!          
(Júlio Maria Pereira dos Reis, 1902-1983)
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17 de dezembro de 2010

Porque é fim-de-semana...

'Bora Bailar!
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(Mário Eloy Pereira, 'Bailarico', 1936)
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Ai, rapaz! / Se tu soubesses bem/ como é que eu fico/
quando vou ao bailarico/ e te miro a dançar (...) 
Ai, rapaz, e foi o baile,/ sem alma nem coração/
mal cantado e mal mandado/ que me atirou ao chão,ó ai...
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E foste tu a dar-me a mão...
..
(Deolinda, 'Ai rapaz' in Álbum 'Canção ao lado', 2008)

11 de dezembro de 2010

Desambiguação...

Never confuse movement with action.

(Ernest Hemingway, 1899-1961)
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8 de dezembro de 2010

A essência de Sophia

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Metade da minha alma é feita de maresia.
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(Sophia de Mello Breyner, 'Atlântico', in 'Mar', Ed. Caminho, 2001)
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(Imagem de Erik Johansson)

7 de dezembro de 2010

Porque é Terça-feira...

É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
da madrugada
E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz

É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada
E a rapariga

vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria
E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz

É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega

É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz

(Sérgio Godinho, É Terça-feira, do Álbum 'Canto da Boca', 1980)

6 de dezembro de 2010

Eufemismos...

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"I'm not confused. I'm just well mixed".

(Robert Frost,1874-1963, poeta Americano, Prémio Pulitzer da Poesia)
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1 de dezembro de 2010

Viktor Frankl ou 'A tese do optimismo trágico'

Viktor Frankl costuma perguntar aos seus pacientes: 'porque não opta pelo suicídio?'  É a partir das respostas a essa pergunta que (... procura) tecer esses débeis filamentos de uma vida arruinada, para construir com eles um padrão firme, com sentido e responsabilidade... Para um escritor que enfrenta com coragem a ubiquidade do sofrimento, ele assume uma visão surpreendentemente positiva da capacidade humana de transcender uma situação difícil e descobrir uma adequada verdade orientadora.
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(Gordon W. Allport no prefácio à 3ª edição americana de 'Man's search for meaning')

(Viktor Frankl nasceu em Viena em 1905. Psiquiatra e psicoterapeuta, viveu, na primeira pessoa, a experiência de ser um prisioneiro comum em diferentes campos de concentração entre 1942 e 1945. Foi o único sobrevivente de um núcleo familiar que incluía a sua esposa, grávida quando feita prisioneira, os pais e o irmão. Após a II Guerra, escreveu, em apenas 9 dias, "Man's search for Meaning'*, onde relata a indizível experiência do campo de concentração e reflecte sobre as estratégias, essencialmente psicológicas, de sobrevivência em condições inimagináveis. Foi co-fundador da Logoterapia, publicou dezenas de livros, desenvolveu a tese do 'Optimismo Trágico' e viveu até aos 92 anos.)
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*Em Portugal o livro está publicado pela Editora Vozes, desde 2009, em parceria com a Editora Sinodal (Brasil),  e com o título 'Em busca de sentido'.
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(mais informações @ Viktor Frankl Institute)
(Imagem dali)

24 de novembro de 2010

Entreprise Impossi(vel)ble

(Maria Helena Vieira da Silva, Entreprise Impossible, 1967)

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade./ Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia./ O último trovador morreu em 1914./ Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples./ Se quer fumar um charuto aperte um botão./ Paletós abotoam-se por eletricidade./ Amor se faz pelo sem-fio./ Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal/ que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura./ Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram/ e matam-se como percevejos./ Os percevejos heróicos renascem./ Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado./ E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)


(Carlos Drummond de Andrade, O Sobrevivente, in 'Alguma Poesia', 1930)

11 de novembro de 2010

Rose Garden

Enquanto dissipam os dinheiros públicos em festas de fraternidade,
um sino de fogo rosa toca nas nuvens.
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(Jean-Arthur Rimbaud, 1854-1891)
 (Paul Klee, Rose Garden, 1920)

31 de outubro de 2010

Aroma a... livro

No 'Qureridas Bibliotecas' deparei com esta citação que não resisto a partilhar:
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Os livros só têm dois cheiros: o cheiro a novo, que é bom,
e o cheiro a usado que é ainda melhor.
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(Ray Bradbury, in “Babélia”, 25/7/2009)

30 de outubro de 2010

É a chuva chovendo...

...e o antídoto, contra eventuais efeitos nefastos, na forma da candura e boa disposição destes dois grandes e memoráveis nomes.


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

(Tom Jobim, Águas de Março, 1972)

24 de outubro de 2010

Seis segundos

A cada seis segundos uma criança morre de fome algures no mundo. Esta semana as associações europeias de futebol unem-se no combate a este flagelo. Abaixo deixo-vos o vídeo de promoção e ainda a campanha de 2005 para a erradicação da pobreza, com um esclarecimento eloquente de Bono. Perdoem-me a falta de tempo para aqui vir ou para vos visitar, mas neste particular o tempo não nos escusa de responsabilidades. O link também aqui fica para os que pretenderem associar-se à petição. Desde já, bem hajam pelo vosso comprometimento.

'One billion hungry' é a campanha da FAO que alerta para a existência de mil milhões de pessoas com fome e cuja petição pode assinar-se aqui.




15 de outubro de 2010

13 de outubro de 2010

Aos nossos...

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And say
my glory
was I had such friends.

(William Butler Yeats)


(... e, perdoem-me o orgulho, em particular... aos meus, que são os melhores do mundo.)

9 de outubro de 2010

Vacilante...

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Un amor indeciso se ha acercado a mi puerta...
Y no pasa; y se queda frente a la puerta abierta.

Yo le digo al amor: -¿Que te trae a mi casa?
Y el amor no responde, no saluda, no pasa...

Es un amor pequeño que perdió su camino:
Venía ya la noche... Y con la noche vino.

¡Qué amor tan pequeñito para andar con la sombra!...
¿Qué palabra no dice, qué nombre no me nombra?...

¿Qué deja ir o espera? ¿Qué paisaje apretado
se le quedó en el fondo de los ojos cerrado?

Este amor nada dice... Este amor nada sabe:
Es del color del viento, de la huella que un ave

deja en el viento... -Amor semi-despierto, tienes
los ojos neblinosos aun de Lázaro... Vienes

de una sombra a otra sombra con los pasos trocados
de los ebrios, los locos... ¡Y los resucitados!

Extraño amor sin rumbo que me gana y me pierde,
que huele las naranjas y que las rosas muerde...,

Que todo lo confunde, lo deja... ¡Y no lo deja!
Que esconde estrellas nuevas en la ceniza vieja...

Y no sabe morir ni vivir: Y no sabe
que el mañana es tan sólo el hoy muerto... El cadáver

futuro de este hoy claro, de esta hora cierta...
Un amor indeciso se ha dormido a mi puerta...

(Dulce Maria Loynaz, 'Amor Indeciso' in 'Poesia Completa', 1993)

7 de outubro de 2010

do latim, 'Angelus'

(Christine Müller-Stosch, Der Engel, 1995)
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Acredite-se ou não neles, a ideia de um anjo é muito reconfortante. Essa crença mágica num ente protector que cuida e ampara, põe a salvo do perigo e nos vela no sono ou na doença, é profundamente apaziguadora. Durante anos acreditei piamente nos anjos. Foi a estratégia que adoptei quando aos sete anos o meu anjo vivo se imaterializou. ‘Foi para o céu’ – disseram-me. E eu acreditei. Passei a falar-lhe a todo o momento, a mostrar-lhe as descobertas que fazia, e a refugiar-me na firme crença da sua protecção quando algum perigo se me afigurava iminente. De cada vez que escapava a algum percalço, atribuía-o à sua intervenção diligente. Agradecia-lhe, convicta de que não precisava de o fazer, pois a sua dedicação e cuidado eram tão incondicionais na ausência quanto haviam sido na breve mas indelével presença. Os anos passaram e eu perdi a fé. Perdi-a nos anjos em geral, mas não neste, em particular.

4 de outubro de 2010

percursos alternativos... em jeito de faz-de-conta

(Edgar Degas, O Ensaio, 1873 -1878)
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Retomo a vida no momento em que a academia ficou sem professora de Ballet. (Não, não passaram dois anos até que outra a substituísse e, no entretanto, eu perdesse a oportunidade de prosseguir). Pouco depois da sua saída, recebemos um professor. Mais raros nestas lides. E com ele voltaram, também, a disciplina, o rigor e a elegância. - "Plié, demi-plié, relevé!" - ordenava. A mão apoiada na barra, o olhar altivo mas nunca arrogante, a postura direita, a suavidade e delicadeza dos gestos... Ao piano, o executante marcava o ritmo. Foi assim que acabei por integrar as maiores companhias do mundo. Fui 'Prima Ballerina' no Royal Ballet, e 'Étoile' no Ballet da Ópera de Paris. Se hoje vos escrevo, é porque já me reformei.

1 de outubro de 2010

Outubro, o anfitrião

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October gave a party;
The leaves by hundreds came -
The Chestnuts, Oaks, and Maples,
And leaves of every name.
The Sunshine spread a carpet,
And everything was grand,
Miss Weather led the dancing,
Professor Wind the band.
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The Chestnuts came in yellow,
The Oaks in crimson dressed;
The lovely Misses Maple
In scarlet looked their best;
All balanced to their partners,
And gaily fluttered by;
The sight was like a rainbow
New fallen from the sky.

Then, in the rustic hollow,
At hide-and-seek they played,
The party closed at sundown,
And everybody stayed.
Professor Wind played louder;
They flew along the ground;
And then the party ended
In jolly “hands around.”

'October’s Party' de George Cooper (1838-1927)

28 de setembro de 2010

A ver Anne Frank

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A livraria Rés, no Porto, recebe até 6 de Outubro uma exposição itinerante sobre Anne Frank. O espólio inclui 200 fotografias biográficas, excertos do diário e o retrato do que se seguiu à descoberta da família pela polícia Nazi. Os últimos tempos são tristes e constam desta mostra também. O cenário é sobejamente conhecido e o objectivo é, precisamente, o de preservar a sua memória. A memória da devastação da Guerra e da ignomínia humana que foi o holocausto. Por isso mesmo, na origem da exposição está o projecto 'Aprender direitos humanos: passado e presente'. E mais não digo. O melhor é ir ao Porto ou a uma das cidades por onde passará no resto do país.

25 de setembro de 2010

wishful thinking for the weekend...

(citação de Henry David Thoreau, Nova Iorque - library way)

23 de setembro de 2010

Say 'Cheeeeeeeeeeese'!

De máquina em riste, o fotógrafo conta: - 'Um, dois, três!"
Elas perfilam-se e fixam a objectiva.
- "Say 'cheese'!"
(Jorinde van Ringen, 'Cows, Netherlands', 2010)

22 de setembro de 2010

Da transcendência


'A natureza e a vida humana são tão diversas como as nossas inúmeras constituições. Quem saberá que perspectiva oferece a vida a outro? Poderia haver milagre maior do que podermos ver através dos olhos de outrem por instantes? Deveríamos viver em todas as épocas do mundo numa hora. Melhor, em todos os mundos das épocas! História, Poesia, Mitologia! Não conheço leitura da experiência do outro tão surpreendente e instrutiva como esta seria'.
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(Henry David Thoreau, in 'Walden', 1854 - ed. portuguesa 'Onde Vivi e para que Vivi', Quasi Ed., 2008)
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(Pintura de John McCormick, 'Thoreau 3', sd.)

19 de setembro de 2010

FOR-ÇA! FOR-ÇA!





Começou hoje no Rio de Janeiro o 8º Campeonato de Futebol Social (Homeless World Cup). Uma iniciativa louvável que reúne 64 equipas representantes de diferentes países e constituídas por pessoas socialmente excluídas. Na última edição a equipa portuguesa foi vice-campeã e hoje já ganhámos o primeiro jogo. Força Portugal! E para todos, os votos de que as suas vidas excluam definitivamente a palavra 'exclusão'.

Mil desculpas II

Felizmente julgo ter recuperado a maioria dos comentários acidentalmente eliminados. Ficam apenas a faltar as minhas respostas, e as datas e ordem dos comentários não puderam ser corrigidas. Contudo, recuperá-los foi importante e faz justiça à riqueza do contributo que aqui representam.

Mil desculpas

A quem por aqui passa e tem a generosidade de comentar este espaço, peço um milhão de desculpas. Por clara incompetência 'cibernáutica' apaguei acidentalmente os comentários aos últimos 'posts'. Tudo farei para recuperar o que for possível. Dado que a partilha das vossas ideias e impressões representa o melhor contributo deste espaço, aceitem as sinceras desculpas e a promessa de que não mais se repetirá, até porque 'nós por cá' é que ficamos a perder...

18 de setembro de 2010

Do amor e do poeta



Hoje, desafiaram-me a falar de amor. A única coisa que me ocorreu foi esta intrigante asserção do poeta: Ama como começa a estrada.
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(Mário Cesariny in 'Pena Capital', 1957)




(Carlos Botelho, 'Mário Cesariny', 2010)

16 de setembro de 2010

Correspondência felídea

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Minha Querida Maria Helena
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A sua carta inter-gatos é das coisas mais lindas que já li - não tem resposta, como as obras-primas. A única coisa que eu sei é enviar-lhe um dia destes uma radiografia muito bonita da Anna Blume que, coitada, não tem árvores, nem quintal nem telhados por onde malandrar e se escapuliu uma noite destas para a rua. (...) Uma pequena lesão, erradamente atribuída a gato galante, que não fazem assim, prendeu-lhe a fabulosa cauda por uns dias e daí o retrato interior. É lindo, como há-de ver. E de uma simplicidade aterradora (parece um Picabia) em corpo tão complexo, tão vivo e secreto. 

(Mário Cesariny in Gatos Comunicantes - correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952 - 1985; Serigrafia do autor)

11 de setembro de 2010

Auto-conhecimento...

'Pinto auto-retratos ... porque sou a pessoa que conheço melhor'
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(Frida Kahlo, 'Autorretrato', 1933)

7 de setembro de 2010

Ler, devia ser proibido!

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'Pensando a respeito, eu acho que ler devia ser proibido. Nada contra quem lê. Mas em certas coisas não se duvida, e ler não é nada bom. A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade. A leitura tira o Homem de sua vida pacata e o transporta a lugares nada convencionais… Para uma criança, o perigo é ainda maior, porque ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo, e querer até mudá-lo! Dá para imaginar? E outra coisa: ler pode estimular a criatividade e você não quer uma criancinha ‘bancando’ o geniozinho por aí… Quer? Além disso, a leitura pode tornar o Homem mais consciente, e ia ser uma confusão se todo o mundo resolvesse exigir o que merece. Nada de vagar pelos caminhos da imaginação, simplesmente porque leu um bom livro. Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer. Quer um conselho? Silêncio! Ler, só serve aos sonhadores, e sua vida não é uma brincadeira. Cuidado! Ler, pode tornar as pessoas… perigosamente mais humanas'. (Universidade Salvador, Bahia).

5 de setembro de 2010

Ignomínia

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Descredibilizar as vítimas poderá constituir estratégia de mitómanos,
mas não demonstra a inocência de ninguém.
’I was walking along... there was blood and tongues of fire above the blue-black fjord and the city - my friends walked on, and I stood there trembling with anxiety - and I sensed an infinite scream ...’ (Edvard Munch, Skrik, 1910 (?) @ Munch Museet).

3 de setembro de 2010

Sem legenda

No dia em que se conhece o resultado de um mediático processo.
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(Ilustração de Maria keil)

2 de setembro de 2010

Loucura... bovina?

(Imagem daqui)
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Uma das coisas mais deliciosas que li nos últimos tempos chama-se Quantas Madrugadas tem a Noite. Obra de Ondjaki, escritor Angolano e um jovem valor literário com provas dadas. A determinada altura do livro, um 'muadiê', narrador participante, discorre sobre a estratégia europeia para a encefalopatia espongiforme bovina nos seguintes termos: 'Ai num sabes?, lá nas europas tão a matar vacas só à toa, só por causa duma loucurazita, aqueles muadiês não batem bem ... Nós aqui mesmo, nosso país, nossas guerras... porra, se desconfiam que uma vaca tá louca - vaca pode ficar louca? quando muito, tá confusa! - mas se desconfiam só, pronto, pode ser uma, mas vão abater já mil. Meu, ouve só a minha ideia... mandar todas vacas aqui, vamos lhes receber no porto, festa e cortejo já e tudo. Vamos com as vacas pro campo... festa das minas, mas não só - elas rebentam e ficam logo semigrelhadas. ... eu mesmo seria o primeiro grelhador das vacas loucas, todas minas descobertas e carne pronta... Minha ideia, uí, mas te autorizo a revelar'.
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(Ondjaki in ´Quantas Madrugadas tem a Noite', 2004, Ed Caminho).

28 de agosto de 2010

votos de um 'Redondo' fim-de-semana

(Era um Redondo Vocábulo de José Afonso na voz de Cristina Branco) 

Em homenagem aos Homens e músicas intemporais.
Esta é uma das minhas preferidas,
porque '(a)inda o ar educa'.

24 de agosto de 2010

'Carmen' e a origem proverbial

(Eduoard Manet, Portrait of Emilie Ambre in the Role of Carmen, 1880)

Terminei a leitura de 'Carmen', obra mais conhecida pela soberba ópera de Bizet do que pela autoria de Prosper Mérimée. No final do livro, o autor cita em Rommani, Língua dos ciganos, um provérbio sobejamente conhecido, mas cuja origem, pessoalmente, ignorava: En retudi panda nasti abela macha, que é como quem diz 'Em boca fechada não entra mosca'. Não há dúvida que em circunstâncias específicas é um provérbio de boa memória!

14 de agosto de 2010

(Des)Equilíbrio...

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Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

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- Como quereis o equilíbrio?
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(David Mourão-Ferreira)

11 de agosto de 2010

Prestemos-lhes homenagem

9 de agosto de 2010

Com uma vénia

'Três Pianos' é a mais eloquente designação para três admiráveis intérpretes, que se reúnem e se confundem com a melodia que das suas mãos emana. Escutá-los sob um tecto de estrelas, aplaca o desconforto de dias escaldantes e enleva o pensamento no suave embalo da brisa nocturna. Aqui fica um exemplo, similar, da homenagem prestada a José Afonso, num movimento que desejávamos, efectivamente, perpétuo.

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(Bernardo Sassetti, Pedro Burmester e Mário Laginha, Traz outro amigo também & Perpetuum Mobile)

30 de julho de 2010

A noite passada...

A noite passada (…) cantavas: "sou gaivota e fui sereia" / ri-me de ti: "então porque não voas?" / e então tu olhaste / depois sorriste / abriste a janela e voaste...
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(Sérgio Godinho, A noite passada, in ‘Pré-histórias’, 1972).

29 de julho de 2010

Vincent Willem van Gogh

(Vicent van Gogh, The Red Vyneard, 1888)
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A 29 de Julho de 1890, Van Gogh falece ao cabo de dois dias de padecimento, na sequência de um tiro apontado ao próprio peito. The Red Vyneard foi o único trabalho que presumivelmente vendeu em vida. Uma curta existência de 37 anos, ocupada por uma carreira artística de apenas 10. Contudo, a grandeza da obra opõe-se ao fugaz hiato da sua duração. Na página do museu oficial, pode ler-se que se lhe conhecem 864 pinturas e quase 1200 desenhos. Viveu pouco, produziu muito e vendeu (quase) nada. Ainda assim, não foi efémero.

21 de julho de 2010

Lexicofilia (2)

Caleidoscópio
(Silvia Ballesteros, Caleidoscopio, 1996)
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Caleidoscópio: do Grego, kallós (belo) + eïdos (forma) + skopeïn (ver), i.é, ver formas belas. O fascinante de um caleidoscópio é que nos devolve, sempre, formas múltiplas, coloridas e potencialmente irrepetíveis... Uma sucessão contínua e hipnotizante de novas possibilidades.

19 de julho de 2010

Uma vida, uma causa (3)

Aristides de Sousa Mendes
(19/07/1885 a 3/4/1954)
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No dia em que se assinala o seu nascimento, não posso deixar de prestar mais esta homenagem a quem muito honra a condição de ser Português. Detentor de uma carreira bem sucedida, na iminência de uma promoção, o rumo de vida deste grande homem é radicalmente alterado quando, em 1938, Salazar o envia para Bordéus. Pouco tempo depois, no eclodir da 2ª Guerra Mundial, e conhecedor dos campos de prisioneiros judeus instalados em França, corajosamente contraria a ordem estabelecida pela Circular nº14 (que proíbe a concessão de vistos portugueses a cidadãos judeus). O feito permitiu que salvasse 30.000 vidas, a expensas da própria. Acabou pobre, doente e só. A sua acção ímpar foi posteriormente usurpada pela propaganda do mesmo governo que o havia condenado e apelidado de "cônsul desobediente". Muitos anos decorreram até que o país repusesse a justiça histórica e lhe reconhecesse o mérito. E agora pergunto: 'Quantos anos mais serão necessários para que conste dos manuais escolares?'

18 de julho de 2010

Uma vida, uma causa (2)

Parabéns Madiba!
(Imagem de Junior Lopes, aqui)

Comemora-se hoje o 92º aniversário de Nelson Mandela. Foram 67 anos dedicados a uma causa: à luta pela paz, pelos direitos humanos e pela igualdade entre cores na nação do arco-íris. A herança de Mandela é dificilmente superável. A todos incita com o seguinte repto: 'ofereçam aos outros 60 minutos da vossa semana’. Um pedido modesto de quem se lhes devotou por mais de 60 anos... Ainda assim, o desafio é grande.

15 de julho de 2010

Do Nuorte? Quenhe? Eu?

Do Nuorte, sim. Leram bem! É como se diz por estas bandas da região oposta ao sul (e atançãoe que eu soue adepta de tuados os pôntos cardiais). Benha daí essa lábia que nós por cá temos muita e bariada. No Pôrto num há canalizadores, só picheleiros, carago! (Ai, carago, que num se puode dizer “carago”). No Pôrto também num há cabides, só cruzetas. Niguenhe sabe o que é uma bica (só as da fuante por onde sai a água), mas um cafezinho já se tomaba. E encarnado? Alguém lá sabe o que isso é? Por aqui só temos bermelho, e é melhor falar baixinho… Em braga podes dizer: “és mesmo térinhobai mas é aos forrinhos que deixei lá ficar a sertã”, que é como quem diz: “és mesmo tonto… vai mas é ao sótão que deixei lá ficar a frigideira”. E, claro, não esqueçamos o nordeste. Em Bragança “tal é o molho como as alfaces”, que é como quem diz: “quem faz uma panela faz um testo p'ra ela”. Enfinhe… este é um “post” que nunca mais acababa, mas já são dez menos cinco da noite (que nós cá não sabemos o que são “cinco pr'as dez") e eu, em bez de estar pr' aqui a bender água sem caneco, bou mas é perguntar ao jeitoso que está aqui ao lado: “num queres sentar-te à minha beira?”, que é como quem diz: “não queres sentar-te ao pé de mim?”

13 de julho de 2010

O Beijo...

(Por Mario Goren, 'Black Skimmer' in National Geographic's Photo of the Day, 2010)

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
(…)
Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!
*
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!
Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...
*
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta! Três!
(…)
(João de Deus in 'Campo de Flores', 1893)

10 de julho de 2010

Na voz de Saramago...

... e com um abraço de imensa gratidão à Mia, que generosamente me brindou com esta preciosidade.

9 de julho de 2010

Da homeostase e da esperança...

(HIV-2, daqui)
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A revista Science publica hoje uma secção especial dedicada à investigação da SIDA. Num artigo assinado por uma equipa liderada por Xueling Wu do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, revela-se a identificação de três anticorpos naturais capazes de neutralizar até 90% do HIV-1 isolado em laboratório (o mais agressivo dos vírus HIV). A descoberta aviva a esperança na concepção de uma vacina eficaz. Como sempre, a natureza é suprema: ao caos opõem a ordem; às teses, as antíteses; ao desequilíbrio, a homeostase... e, acrescentaria eu, ao desânimo, a esperança.

6 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

(Imagem do ´Século Ilustrado', nº 485, Abril de 1947daqui)

Os alunos, muitas vezes, julgavam que os escritores tinham todos morrido e quando começámos a aparecer por lá... mostrámos afinal que não éramos o "clube dos poetas mortos"... Desses encontros trago sempre um quinhão de felicidade que os alunos generosamente me entregam na fraternidade do ler, do seu ler. Uma felicidade que me ensina tanto. Assim eu possa continuar a aprender.
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(Matilde Rosa Araújo em entrevista à 'Página', nº 114, Julho 2002)
  
E assim possamos nós mantê-la "viva" e continuar a aprender com ela. 

Uma vida, uma causa...

75º Aniversário de Dalai Lama
Comemora-se uma vida que se confunde com uma causa. Uma causa mandatária de uma cultura, uma Língua, um território e, sobretudo, muitas outras vidas. Aqui fica a homenagem ao homem e à causa que incansavelmente representa.

(Site Oficial Aqui)
(Fotografia por Norbu, daqui.)

1 de julho de 2010

Dia Mundial da Biblioteca

Assinalo-o com a citação de J L Borges que deu o mote a este blogue:
'Siempre imaginé que el paraiso seria algún tipo de biblioteca'
Biblioteca do Convento de Mafra
(Imagem daqui, onde há outras que merecem ser espreitadas)

30 de junho de 2010

Quero ir... (2)

... sem limites, reverenciar esta vida e esta obra
'Quando tinha vinte, trinta ou quarenta anos era muito intuitivo mas, agora, elevei os valores da intuição ao raciocínio'
(Nadir Afonso dixit).


(Imagem daqui)

28 de junho de 2010

Versando sobre a Lua...

(Tarsila do Amaral, A Lua, 1928)
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Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
.
(Cecília Meireles, 'Lua adversa' in "Flor de Poemas", 1983)

24 de junho de 2010

Talentos múltiplos...

O Van Gogh Museum Amsterdam exibe on-line, de há um tempo a esta parte, um acervo sublime de cartas do Mestre. São cerca de 900! E, nelas, podem apreciar-se os múltiplos talentos do pintor, que vão da, sobejamente conhecida, pintura à ilustração, poesia e prosa. Está tudo aqui. A não perder…
Herewith a little drawing of the view from the school window where the boys stand and watch their parents going back to the station after a visit. Many a boy will never forget the view from that window. You should have seen it this week when we had rainy days, especially in the twilight when the street-lamps are being lit and their light is reflected in the wet street. (Van Gogh, Maio de 1876).

22 de junho de 2010

N'Outros Parêntesis

Em "Letras são papéis" pode ver-se um exemplo de "biblioburro". Uma biblioteca itinerante, às costas de um burriquinho, encimado por um professor tão sonhador quanto empreendedor.  
A não perder!
E, claro, aqui fica o agradecimento reiterado à deep.

Desafio

Da Loopy chegou este simpático convite. Junto-me a ela e à Calisto. Espreitem-nos, digam de vossa justiça e deixem sugestões!

21 de junho de 2010

Logrado...

A book must be an ice-axe to break the seas frozen inside our soul.
(Franz Kafka)
"José Saramago"
 (por Ruy Jobim Neto, aqui)

20 de junho de 2010

Obediência conveniente...

(Quino)

Porque é Domingo e eu tenho de desobedecer...

18 de junho de 2010

Em prol da eternidade...

(José Saramago, fotografia daqui)
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De José Saramago permanecerão a vasta obra e o testemunho de vida. E para que a memória não se extinga a breve prazo, pugnarão, entre outras, esta concretização.

17 de junho de 2010

Ainda a propósito de "diseurs"...

...Aqui fica uma singela homenagem a dois dos maiores vultos portugueses: Mário Viegas e João Villaret


16 de junho de 2010

Quero ir...

"Festival Silêncio":  quero ir para, em silêncio, ouvir "les diseurs"...
(João Peste, imagem daqui)

14 de junho de 2010

Lexicofilia...




.Palíndromo: Do grego, "que corre para trás". Palavra ou designativo da palavra, número ou frase cuja leitura é a mesma, quer se faça da esquerda para a direita, quer da direita para a esquerda (in Dicionário da Língua Portuguesa).

Exemplo: Ame o poema




(Vivienne Koorland, Poem fragment, 2005)

12 de junho de 2010

Sorry...

Aos que por aqui passam, peço desculpa pela inconstância da imagem. Têm sido sucessivas as tentativas de encontrar uma solução que satisfaça plenamente. Por enquanto, ficamo-nos por esta, na expectativa de que não desiluda :)

Contra o trabalho infantil

Que este Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil se multiplique pelos restantes 364
.

11 de junho de 2010

"Bebe-se o alento num copo sem fundo..."

Mais uma obra de arte de um letrista, músico, poeta... insuperável
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A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida...
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
.
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
(...)
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
(...)
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
(...)
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
(...)
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida...